Os otários somos nós, e eles os espertos. Nós pagamos todos os impostos para talvez, sobrar algum, e eles roubam tudo que nos faz falta, para ter suas casas espalhadas pelo mundo. Nós esperamos a nossa vez, que para muitos nunca chega, enquanto eles furam a fila, aceitam suborno, mentem para Deus e o diabo. Nós que andamos a pé, que falamos de fé, que recusamos ficar presos ao dinheiro; somos nós os imprestáveis, os inferiores, que nunca bebemos para dirigir, que nunca dirigimos para correr, que nunca corremos para matar e morrer; somos nós os maus e eles, os retos; capazes de comprar para si o mundo, mas deficientes para qualquer caridade, para pagar o pastel do menino de rua.
Deve ser ótimo ser esperto assim, e sempre estar vencendo, passando longe do mal, sem saber quanto mal leva em si, quantos males planta por aí, e quase tudo dentro da lei. Os otários somos nós, que nos recusamos a tirar vantagem da pirataria, de quem paga para ler, assistir e usar. Os otários somos nós, que negamos o jogo, cuspimos na fama, feita de acordos perversos, e que apregoa idolatria, enquanto a gente que faz arte por amor, luta sem reconhecimento quase nenhum, nem daqueles que nos cercam; aqueles bonitos devem mesmo ser melhores do que a gente; mais importantes, pelo menos enquanto todos nos jornais, revistas e noticiários disserem que sim.
Os otários somos nós mesmos, que sonhamos com uma pessoa especial, enquanto eles saem para estragar tantas quantas puderem; falam mentiras, transmitem enfermidades, somem do mapa, agridem quando querem, e continuam respeitados com seus carros, com seu ouro; fedendo a podres poderes, usando perfumes caros; ligando o som alto na madrugada, quebrando tudo por seus times, ateando fogo nos mendigos.
Muito espertos, contratando sem carteira, prometendo uma carreira, pagando o quanto menos puderem, esmagando as almas por resultados, por mais lucros e um bocado de vaidade. Os pais deles devem ter orgulho dos seus valores, dos seus amores materiais, dos seus relacionamentos sempre superficiais; mas os nossos devem ter vergonha da gente, nunca devem nos elogiar, pois somos os otários sem grana, sem garota da capa, sem viagens com tudo pago, sem as coisas mais caras do mercado.
Mais espertos ainda, os que prometem aos pobres, e garantem suas campanhas com os ricos, que depois governam para os ricos, e esquecem sua gente na ignorância, pois com arrogância, votam leis para si; eles aumentam o ordenado para garantir conforto, ainda roubando sem impedimentos, o trabalho do povo, o suor do povo, o sonho do povo; seus filhos têm um futuro garantido, um nome concorrido, um estudo escolhido; um apoio infinito dos parentes e amigos, em tudo que fazem, enquanto para nós, otários, até Deus tentam vender, outros deuses tentam erguer, para que nunca fiquem sem controlar, sem perder nem por um segundo.
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